Chegamos ao supermercado e eu fui direto pegar um carrinho.
Ela caminhava ao meu lado com aquela confiança tranquila que parecia dominar qualquer ambiente.
— Posso te chamar de Edu? — ela perguntou, com a voz levemente provocante.
Olhei para ela por um segundo e apenas fiz um aceno com a cabeça.
— Pode, sim.
Ela sorriu, satisfeita.
— Então vamos comprar a carne primeiro… Edu.
O jeito que ela falou meu nome fez algo estranho acontecer dentro de mim.
— Claro — respondi, tentando parecer normal.
No açougue, escolhemos um filé bonito. Ela parecia entender do assunto, comentando sobre ponto da carne, temperos… Eu só concordava, fingindo maturidade.
Depois fomos para a parte dos vegetais.
E foi aí que ficou perigoso.
Ela caminhava na minha frente, o vestido marcando suavemente o corpo. Cada passo era natural… mas parecia calculado. Eu tentava olhar para as prateleiras, para os preços, para qualquer coisa.
Mas meus olhos sempre voltavam para ela.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
Virou o rosto por cima do ombro e me lançou aquele sorriso provocador.
— Só não vai tropeçar e cair, viu? — disse, com aquele olhar que misturava diversão e desafio.
Senti meu rosto esquentar, mas dessa vez algo diferente aconteceu.
Criei uma coragem que nem sabia que tinha.
Desviei o olhar do corpo dela e encarei diretamente seus olhos verdes.
— Estou tentando muito não fazer isso — respondi, dando o meu melhor sorriso.
Por um instante, ela ficou em silêncio.
O sorriso dela mudou.
Não era mais só provocação.
Era curiosidade.
Talvez surpresa.
E talvez… algo mais.
O carrinho parou entre nós.
O supermercado continuava cheio, pessoas passando, carrinhos batendo, vozes ao fundo.
Mas naquele momento parecia que só existíamos nós dois.
E eu começava a perceber que aquele jogo não era tão inocente quanto parecia.
Na hora de escolher as verduras, ela analisava tudo com atenção, como se cada detalhe importasse.
Pegou um repolho, avaliando as folhas com cuidado, depois estendeu a mão para um pepino.
O jeito que ela segurou… lento, firme, quase estudando o formato antes de colocá-lo no carrinho… fez meu cérebro trabalhar rápido demais.
Senti o calor subir pelo meu rosto.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
Quando levantou os olhos para mim, havia aquele olhar travesso — discreto, mas cheio de intenção.
Não disse nada.
Nem eu.
Mas o silêncio entre nós ficou diferente.
Mais pesado.
Mais consciente.
Limpei a garganta, tentando recuperar a compostura, e empurrei o carrinho para a próxima seção.
— Falta mais alguma coisa? — perguntei, fingindo naturalidade.
— Talvez um vinho — ela respondeu, como se nada tivesse acontecido.
Fomos até a parte das bebidas. Ela escolheu a garrafa com calma, passando os dedos pelo rótulo antes de colocá-la no carrinho.
— Para acompanhar a carne — explicou, mas o sorriso dizia que não era só isso.
Pagamos as compras quase em silêncio.
O caminho de volta foi estranho.
Não havia mais brincadeiras inocentes.
Havia expectativa.
Quando entramos no prédio, o elevador parecia pequeno demais para nós dois.
E eu começava a perceber que aquela noite podia deixar de ser apenas um jantar especial.
