O clima voltou a ficar cheio de brincadeiras, mas havia algo diferente no olhar dela.
— Sabe, Edu… eu sinto falta disso — ela disse, mexendo distraída na borda da mesa. — O Marcos viaja demais.
Havia um leve peso na voz dela. Não era drama… era cansaço.
Percebi.
— Sabe, Amanda… somos dois solitários — falei em tom exagerado, levando a mão ao peito como se estivesse em uma novela. — A diferença é que você pelo menos tem o Luke.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Se quiser, eu deixo você ficar com o Luke também.
— Não, ele me odeia.
Ela soltou uma risada sincera.
— Edu, você sabe me animar.
Fiz uma pose exagerada, como se estivesse tirando um chapéu imaginário e me curvando.
— A seu dispor, madame.
Ela riu de novo, balançando a cabeça.
— Você deveria ser um arrasa-corações na escola.
Dei de ombros.
— Não. Eu era um solitário… na verdade, ainda sou.
Ela fez uma fungada brincalhona e cruzou os braços, assumindo um ar decidido.
— A partir de hoje, nem eu nem você somos dois solitários.
Olhei para ela por um segundo, depois sorri.
— Fechado.
Ela apontou para a cozinha com entusiasmo renovado.
— Então vamos jantar antes que o bife passe do ponto.
Levantei da cadeira.
— Sim, chef.
Durante o jantar, entre risadas e provocações, percebi que Amanda tinha esvaziado a garrafa quase sozinha.
Olhei para a taça vazia e depois para ela.
— Você realmente gostou desse vinho, hein?
Ela deu de ombros, apoiando o queixo na mão.
— Às vezes a gente só precisa de um empurrãozinho pra se animar.
Fiquei curioso.
— Animar pra quê?
Ela me olhou com aquele brilho diferente nos olhos.
— Sabe, Edu… eu sempre quis colocar um piercing.
— Sério? — perguntei, surpreso. — E por que nunca colocou?
Ela girou a taça vazia entre os dedos.
— Nunca tive ânimo. Sempre deixei pra depois. Mas hoje… eu me animei.
— Então vai pôr — respondi, simples.
Ela sorriu de lado.
— Sozinha não.
— Como assim?
— Você iria comigo?
Nem pensei muito.
— Sempre, Amanda.
O sorriso dela ficou mais suave.
— Você é um fofo, sabia?
Naquele momento percebi que a conversa estava diferente. Leve. Sem tensão. Sem aquela provocação constante.
Ela parecia… mais nova. Quase como eu. Só dois adolescentes falando de vontades simples e decisões impulsivas.
E, pela primeira vez naquela noite, eu não estava nervoso.
Estava confortável.
Antes de eu ir embora, ela pegou meu celular da minha mão.
— Me passa seu contato.
— Achei que você já tinha.
— Agora eu tenho oficialmente — disse, salvando o número.
Na porta, ela sorriu mais uma vez.
— A gente marca o dia do piercing.
— Combinado.
Fui para casa com um sorriso que eu não conseguia disfarçar.
Acordei e, antes mesmo de levantar, peguei o celular.
Tinha uma mensagem dela.
"Bom dia 😘"
Sorri automaticamente.
"Bom dia. Acordei agora."
A resposta veio rápida.
"Dorminhoco."
Ri sozinho.
"Me perdoa, fui dormir tarde." escrevi, ainda com bom humor.
Demorou alguns segundos.
"E o que você tava fazendo, hein?"
Dava pra sentir o divertimento dela até pela tela.
Resolvi entrar na brincadeira.
"Estava com minha linda vizinha."
Ela respondeu quase na mesma hora.
"Sei, playboy 😂"
Balancei a cabeça, rindo.
Resolvi mudar de assunto antes que ela começasse outra provocação.
"Então… vamos aonde?"
Ela digitou por um tempo maior dessa vez.
"Edu, eu pedi ajuda porque não sei onde colocar o piercing."
Encarei o teto por um segundo.
"Pra ser sincero… eu também não sei."
Veio a resposta:
"E agora, Edu?"
Sentei na cama e fiz uma pesquisa rápida no Google. Encontrei um estúdio de tatuagem e piercing dentro de um shopping bem avaliado. Copiei a localização e enviei pra ela.
"Achei esse aqui. Parece bom."
Alguns segundos depois:
"Vou com você lá. Mas amanhã você vai torcer por mim no teste de futebol."
Ela respondeu com um emoji animado.
"Combinado então, Edu."
Fiquei olhando a conversa por mais um tempo.
Aquele simples "bom dia" tinha melhorado meu humor mais do que eu queria admitir.
E agora tínhamos dois compromissos.
O piercing dela.
E o meu teste.
