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Chapter 6 - Shopping

Depois do almoço, a campainha tocou.

Eu já estava pronto, só esperando por ela. Tinha avisado meu pai que sairia com a Amanda. Como não o vi na noite anterior, provavelmente chegou tarde e saiu cedo, como sempre.

Respirei fundo antes de abrir a porta.

Quando saí do apartamento, dei de cara com ela no corredor.

Regata leve, saia simples… e ainda assim parecia que tinha se arrumado para um evento importante.

Ela estava linda.

Meu olhar demorou mais do que deveria. Eu sei que demorou.

E ela percebeu.

O canto da boca dela se curvou devagar.

— Vai continuar me analisando ou vai dizer "oi"? — provocou.

Pisquei, voltando à realidade.

— Oi.

Ela cruzou os braços, divertida.

— Só isso?

— Você tá… — parei, tentando parecer menos impactado do que realmente estava — bem arrumada.

— "Bem arrumada"? — ela repetiu, fingindo indignação. — Eu me esforço e recebo um "bem arrumada"?

Ri.

— Tá bom. Você tá linda.

Ela inclinou a cabeça, satisfeita.

— Agora sim.

Começamos a caminhar pelo corredor em direção ao elevador.

— Você também não está nada mal, Edu — ela comentou, olhando de relance. — Tá tentando impressionar o tatuador?

— Não. Só garantindo que você não desista do piercing no meio do caminho.

Ela riu.

— Ah, eu não vou desistir. Mas é bom saber que tenho apoio moral.

As portas do elevador se abriram.

Entramos ainda sorrindo, naquele clima leve de provocações e cumplicidade que parecia estar ficando cada vez mais natural entre nós.

— Nervosa? — perguntei.

Ela pensou por um segundo.

— Um pouco. Mas é aquele tipo de nervosismo bom.

Olhou para mim de lado.

— Ainda bem que você veio.Chegamos ao shopping e, assim que entramos, Amanda diminuiu o passo.

— Antes do piercing… preciso passar numa loja.

— Opa. Mudou de ideia já? — provoquei.

— Não. É rápido. O Marcos pediu pra eu pegar um relógio. Edição de luxo.

Ela falou "edição de luxo" com um tom meio atravessado.

— Ele gosta tanto assim de relógio?

Ela soltou um suspiro.

— Nem gosta. Provavelmente vai dar pra alguém. Ele sempre faz isso.

Percebi o desgosto na voz dela. Não era raiva. Era frustração.

Não comentei muito. Só acompanhei.

Entramos na loja, pegamos o tal relógio — caro demais para algo que, segundo ela, nem era a cara dele — e saímos de lá.

— Pronto. Agora sim, minha vez — ela disse, tentando recuperar o ânimo.

Caminhamos até o estúdio que eu tinha encontrado. Quando paramos na frente, ela apertou minha mão por um segundo.

— Última chance de fugir — brinquei.

— Jamais.

Entramos.

Olhei em volta, tentando parecer tranquilo. Quando a recepcionista chamou o nome dela e vi que quem faria o piercing era uma mulher, soltei um suspiro discreto de alívio.

Amanda percebeu.

— Relaxa, Edu — ela sussurrou, rindo. — Tá nervoso por mim ou por você?

— Pelos dois.

A profissional explicou o procedimento com calma, mostrou os materiais lacrados, tudo bem organizado.

Amanda me olhou pelo espelho.

— Fica aqui comigo.

— Sempre.

Ela respirou fundo, segurou minha mão com mais firmeza.

— Se eu gritar, finge que é normal.

— Eu vou fingir que você está cantando.

Ela riu, o que pareceu aliviar a tensão.

Alguns minutos depois, estava feito.

Ela levou a mão devagar até o local, olhando o reflexo.

— E aí? — perguntou.

Inclinei a cabeça, analisando.

— Ficou perfeito.

Ela sorriu daquele jeito satisfeito, quase orgulhoso.

— Viu? Eu disse que hoje eu estava animada.

Ela ainda estava olhando o reflexo no espelho quando virou pra mim com um brilho diferente nos olhos.

— Agora… uma tatuagem.

— Tatuagem? — repeti, só pra confirmar se eu tinha ouvido certo.

Ela assentiu com a cabeça, decidida.

— Sim. Pequena.

— Amanda…

Ela levantou a mão, interrompendo.

— Calma. Nada gigante. Nada dramático.

A tatuadora se aproximou novamente.

— Já sabe o que quer?

Amanda respirou fundo.

— Uma pimenta. Bem pequena.

Eu pisquei algumas vezes.

— Uma pimenta?

Ela sorriu de lado.

— Combina comigo.

E combinava mesmo.

Depois de escolher o tamanho e o lugar — discreto, delicado, na virilha — ela se sentou na cadeira outra vez. Dessa vez parecia menos nervosa.

— Se doer, eu rio — ela avisou.

— Você ri de tudo — respondi.

A máquina começou a fazer aquele som característico. Eu observei em silêncio, com tesão luxúria .

Ela manteve a postura firme, só apertando os dedos uma vez ou outra.

Alguns minutos depois, estava pronta.

Amanda inclinou a cabeça, analisando a pequena pimenta desenhada com traço fino e preciso.

— Perfeita — ela disse.

Olhou para mim.

— O que achou?

Aproximei um pouco.

— Ficou a sua cara.

— Por quê?

— Quente ….

Ela riu alto.

— Gostei dessa definição.

Pagamos e saímos do estúdio. No corredor do shopping,

— Então… — ela disse, caminhando ao meu lado — ainda acha que eu não sei fazer coisas irresistíveis.

— Acho que você sabe exatamente o que está fazendo.

Ela piscou.

— Ótimo.

E continuamos andando, como se aquele pequeno desenho tivesse marcado mais do que só a pele dela.

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