Depois do almoço, a campainha tocou.
Eu já estava pronto, só esperando por ela. Tinha avisado meu pai que sairia com a Amanda. Como não o vi na noite anterior, provavelmente chegou tarde e saiu cedo, como sempre.
Respirei fundo antes de abrir a porta.
Quando saí do apartamento, dei de cara com ela no corredor.
Regata leve, saia simples… e ainda assim parecia que tinha se arrumado para um evento importante.
Ela estava linda.
Meu olhar demorou mais do que deveria. Eu sei que demorou.
E ela percebeu.
O canto da boca dela se curvou devagar.
— Vai continuar me analisando ou vai dizer "oi"? — provocou.
Pisquei, voltando à realidade.
— Oi.
Ela cruzou os braços, divertida.
— Só isso?
— Você tá… — parei, tentando parecer menos impactado do que realmente estava — bem arrumada.
— "Bem arrumada"? — ela repetiu, fingindo indignação. — Eu me esforço e recebo um "bem arrumada"?
Ri.
— Tá bom. Você tá linda.
Ela inclinou a cabeça, satisfeita.
— Agora sim.
Começamos a caminhar pelo corredor em direção ao elevador.
— Você também não está nada mal, Edu — ela comentou, olhando de relance. — Tá tentando impressionar o tatuador?
— Não. Só garantindo que você não desista do piercing no meio do caminho.
Ela riu.
— Ah, eu não vou desistir. Mas é bom saber que tenho apoio moral.
As portas do elevador se abriram.
Entramos ainda sorrindo, naquele clima leve de provocações e cumplicidade que parecia estar ficando cada vez mais natural entre nós.
— Nervosa? — perguntei.
Ela pensou por um segundo.
— Um pouco. Mas é aquele tipo de nervosismo bom.
Olhou para mim de lado.
— Ainda bem que você veio.Chegamos ao shopping e, assim que entramos, Amanda diminuiu o passo.
— Antes do piercing… preciso passar numa loja.
— Opa. Mudou de ideia já? — provoquei.
— Não. É rápido. O Marcos pediu pra eu pegar um relógio. Edição de luxo.
Ela falou "edição de luxo" com um tom meio atravessado.
— Ele gosta tanto assim de relógio?
Ela soltou um suspiro.
— Nem gosta. Provavelmente vai dar pra alguém. Ele sempre faz isso.
Percebi o desgosto na voz dela. Não era raiva. Era frustração.
Não comentei muito. Só acompanhei.
Entramos na loja, pegamos o tal relógio — caro demais para algo que, segundo ela, nem era a cara dele — e saímos de lá.
— Pronto. Agora sim, minha vez — ela disse, tentando recuperar o ânimo.
Caminhamos até o estúdio que eu tinha encontrado. Quando paramos na frente, ela apertou minha mão por um segundo.
— Última chance de fugir — brinquei.
— Jamais.
Entramos.
Olhei em volta, tentando parecer tranquilo. Quando a recepcionista chamou o nome dela e vi que quem faria o piercing era uma mulher, soltei um suspiro discreto de alívio.
Amanda percebeu.
— Relaxa, Edu — ela sussurrou, rindo. — Tá nervoso por mim ou por você?
— Pelos dois.
A profissional explicou o procedimento com calma, mostrou os materiais lacrados, tudo bem organizado.
Amanda me olhou pelo espelho.
— Fica aqui comigo.
— Sempre.
Ela respirou fundo, segurou minha mão com mais firmeza.
— Se eu gritar, finge que é normal.
— Eu vou fingir que você está cantando.
Ela riu, o que pareceu aliviar a tensão.
Alguns minutos depois, estava feito.
Ela levou a mão devagar até o local, olhando o reflexo.
— E aí? — perguntou.
Inclinei a cabeça, analisando.
— Ficou perfeito.
Ela sorriu daquele jeito satisfeito, quase orgulhoso.
— Viu? Eu disse que hoje eu estava animada.
Ela ainda estava olhando o reflexo no espelho quando virou pra mim com um brilho diferente nos olhos.
— Agora… uma tatuagem.
— Tatuagem? — repeti, só pra confirmar se eu tinha ouvido certo.
Ela assentiu com a cabeça, decidida.
— Sim. Pequena.
— Amanda…
Ela levantou a mão, interrompendo.
— Calma. Nada gigante. Nada dramático.
A tatuadora se aproximou novamente.
— Já sabe o que quer?
Amanda respirou fundo.
— Uma pimenta. Bem pequena.
Eu pisquei algumas vezes.
— Uma pimenta?
Ela sorriu de lado.
— Combina comigo.
E combinava mesmo.
Depois de escolher o tamanho e o lugar — discreto, delicado, na virilha — ela se sentou na cadeira outra vez. Dessa vez parecia menos nervosa.
— Se doer, eu rio — ela avisou.
— Você ri de tudo — respondi.
A máquina começou a fazer aquele som característico. Eu observei em silêncio, com tesão luxúria .
Ela manteve a postura firme, só apertando os dedos uma vez ou outra.
Alguns minutos depois, estava pronta.
Amanda inclinou a cabeça, analisando a pequena pimenta desenhada com traço fino e preciso.
— Perfeita — ela disse.
Olhou para mim.
— O que achou?
Aproximei um pouco.
— Ficou a sua cara.
— Por quê?
— Quente ….
Ela riu alto.
— Gostei dessa definição.
Pagamos e saímos do estúdio. No corredor do shopping,
— Então… — ela disse, caminhando ao meu lado — ainda acha que eu não sei fazer coisas irresistíveis.
— Acho que você sabe exatamente o que está fazendo.
Ela piscou.
— Ótimo.
E continuamos andando, como se aquele pequeno desenho tivesse marcado mais do que só a pele dela.
