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Chapter 11 - DÚVIDA E A CAUTELA DO CÉREBRO

O mármore branco da Universidade de UniCampos refletia o sol da manhã com uma frieza estéril. Era uma cidade construída sobre a ideia de que o conhecimento é limpo e a ordem é absoluta. A Célula Alfa – Lyris Nereval, Kazuo Hayashima e Leonardo Veyndril – avançava com a certeza profissional da Guilda Master X, mas a tensão sob a fachada da Academia era palpável.

Leo, seguindo a elegância fria de Lyris, sentia o contraste entre a exaustão brutal imposta por Ainar e a necessidade súbita de precisão cirúrgica. Ele tinha que ser o Hierofante agora, a tática acima da força. Kazuo, o Espadachim Arcano, era o silêncio que ameaçava; sua presença era a manifestação da força que Lyris não precisaria usar.

A entrada no Grande Salão foi interrompida pelo Mestre de Segurança Arcana, um homem pálido e rígido que cheirava a pânico.

— Mestra Lyris, a Master X não pode simplesmente…

Lyris o interrompeu, a voz calma, mas com a autoridade de quem move montanhas. — Não é uma visita, Mestre. É uma avaliação de risco de segurança arcana, Nível Alfa. A cidade está sob um estado de alerta não-oficial devido aos desaparecimentos. Exigimos acesso imediato ao Reitor Vallas. O tempo da Guilda é valioso.

A ameaça sutil da intervenção de Rank A era suficiente. Eles foram conduzidos ao gabinete de Reitor Orin Vallas, um homem de fachada respeitável, com olhos castanhos tensos e uma presunção intelectual.

Vallas forçou um sorriso, ajeitando a seda de sua túnica. — Mestra Lyris. É uma honra, mas desnecessária. A polícia local está cuidando de tudo. São apenas… casos isolados.

Lyris aceitou a cadeira mais próxima, gesticulando para que Leo e Kazuo permanecessem de pé. Kazuo parou na porta, as costas para a parede, tornando-se parte da arquitetura, mas uma parte que poderia se mover à velocidade do som. Leo ficou atrás de Lyris, sua mente, marcada pelo treinamento de Ainar, ativando discretamente a Previsão Ativa. Ele não via o futuro, mas sentia o fluxo da verdade e da mentira no comportamento de Vallas.

Lyris não atacou os desaparecimentos; ela atacou a lógica de Vallas.

— Reitor, a Master X não está aqui para caçar estudantes fugitivos. Estamos aqui para entender a falha de segurança da sua Academia. UniCampos é um farol de tecnologia arcana. Se pessoas estão sumindo sem deixar vestígios, isso significa que seus sistemas de vigilância de perímetro falharam. E isso é inaceitável para o Reino.

Vallas se recostou em sua cadeira, tentando recuperar a calma. — Nossos sistemas não falharam, Mestra. Eles são de última geração.

— E quais são eles? — perguntou Lyris, sua voz suave. — Sensores de calor, certamente. Talvez runas de eletricidade estática nos becos para detectar intrusos elementais?

— Exatamente — confirmou Vallas, assentindo. — A tecnologia mais avançada.

Leo, sentindo o pulso de Vallas se estabilizar, interveio, sua voz neutra. — Mestra, se os sistemas são baseados em calor e eletricidade estática, por que não houve nenhum registro de anomalia térmica ou de energia nos momentos dos desaparecimentos? É estatisticamente impossível que vinte pessoas tenham sido levadas sem que a segurança arcana de UniCampos tenha capturado uma única flutuação de calor ou energia.

A pergunta de Leo era puramente baseada na probabilidade. Ele havia atacado a ciência de Vallas. O Reitor havia mentido sobre a eficácia, não sobre a intenção. A estabilidade de Vallas vacilou.

— Eles podem ter sido levados por métodos… não-mágicos. Rotas de serviço…

— Rotas de serviço — Lyris repetiu, pegando a linha de Leo com precisão fria. — Ótimo. UniCampos utiliza um sistema de dutos de serviço extenso, correto? Muitos deles datam do tempo das Minas Velhas e levam à área de descarte de resíduos químicos e biológicos da Academia.

Vallas tentou desviar. — Essa área está selada, Mestra. Apenas para resíduos.

— Eu não duvido da vedação — disse Lyris, mantendo o tom profissional. — Mas me preocupa o protocolo de manutenção. Se a Academia não está registrando falhas de segurança nas ruas, é possível que os sequestradores estejam usando os dutos de serviço para movimentar as vítimas sem que a vigilância de calor os detecte.

Lyris olhou diretamente nos olhos de Vallas. — Se a Master X fosse investigar essa possibilidade, qual seria o protocolo de acesso? Onde estão os livros de registro de manutenção para essa área de resíduos?

A pergunta era uma armadilha. Lyris não estava perguntando se a área de resíduos estava sendo usada. Ela estava perguntando quem tinha acesso legal a ela. Vallas se agitou na cadeira.

— Os registros de acesso à área de resíduos são confidenciais — ele disse, com a voz levemente embargada. — São para evitar roubo de reagentes.

Leo moveu-se sutilmente. — Reitor, a Master X tem acesso a registros de reagentes de Minério Pesado em todo o Reino. Sua preocupação é com roubo de reagentes, ou com o vazamento de dados de acesso que permitiriam a alguém entrar e sair do complexo sem ser detectado pelos sensores de perímetro?

Vallas ficou em silêncio, a raiva fria substituindo o nervosismo. Ele estava sendo encurralado pela lógica. A Master X não tinha informações sobre os Húmúnculos, mas sabia que Vallas estava escondendo uma falha de acesso.

Lyris sorriu, uma expressão que não era de prazer, mas de vitória. — Reitor, faremos uma inspeção de rotina nas áreas de serviço imediatamente. Eu quero que o senhor nos guie pessoalmente. A Master X precisa verificar a integridade estrutural dos pontos de acesso aos dutos. Não se preocupe, nosso interesse é apenas em garantir que a segurança arcana da cidade seja mantida.

Vallas, forçado e humilhado, conduziu a Célula Alfa. O tour não foi nos grandes laboratórios, mas nos corredores de serviço e porões de UniCampos, onde a pedra era nua e as tubulações de metal eram expostas. O cheiro de resíduos químicos era mais forte aqui, misturado a uma umidade metálica.

Vallas tentava incessantemente apressá-los, desviando o olhar de portas de serviço simples.

Eles chegaram a um corredor de concreto, com uma porta de aço pesado no final. Lyris parou em frente à porta. O que a tornava especial era a ausência de vigilância visível.

— Reitor, essa porta não tem runas de vigilância de calor nem estática — Lyris observou. — E está trancada com um teclado numérico e uma interface de leitor de palma. Se esta é uma área de descarte, por que a segurança é baseada na identidade, e não no protocolo de contenção?

Leo observou a interface biométrica. O metal ao redor do leitor de palma estava ligeiramente polido, desgastado por uso frequente. Vallas havia mentido sobre a frequência de uso.

— Protocolo de segurança, Mestra Lyris. A Academia é muito cuidadosa com o acesso.

Lyris deu um passo à frente, e Kazuo, que vinha logo atrás, roçou a porta de aço com sua bainha. O som metálico era um recordatório sutil da violência que os aguardava.

— Reitor Vallas — Lyris concluiu, com a voz definitiva. — O senhor nos forneceu inconsistências suficientes para um relatório de segurança negativo. O uso de identidades em uma porta que, pelo seu protocolo, deveria ser apenas um descarte, sugere que essa área está em uso ativo para fins não-oficiais. Encerramos a inspeção.

Lyris se virou, voltando para o salão principal. Vallas permaneceu ali, sua fachada de cientista quebrando-se sob a pressão. A Célula Alfa havia obtido a confirmação. O segredo de UniCampos não era um erro, mas um projeto ativo escondido atrás de uma porta de acesso.

Eles deixaram a Universidade, a sensação de vitória fria e estratégica. Lyris havia usado a burocracia para forçar o Reitor a se expor.

A Pousada do Livro Aberto era um refúgio acolhedor de madeira escura e calor, contrastando com a frieza do mármore da Academia. Eles se instalaram em um quarto reservado. Lyris espalhou o mapa de UniCampos sobre a mesa.

— Confirmação obtida — disse Lyris, traçando um círculo em torno do complexo principal da Universidade. — O Reitor Vallas é o ponto de controle. A mentira dele sobre o Setor T-5 e o acesso biométrico é a nossa prova. O segredo está lá.

Leo, sentindo o corpo relaxar um pouco, olhou para o mapa. Ele havia tido sucesso, mas a exaustão o lembrava do preço. O sorriso arrogante de Ainar em sua mente era o único reconhecimento que ele precisava.

— Se ele está usando acesso biométrico e está preocupado com o roubo de dados, ele está escondendo algo que tem valor para ele e que pode ser exposto — disse Leo, a voz cansada, mas firme. — Não é apenas um esconderijo. É um laboratório.

Kazuo, sentado no canto, olhou para a porta. — A Célula Beta deve estar chegando. Precisamos saber o que eles encontraram no submundo antes de usarmos a força. Vallas está preso na teia de sua própria burocracia, mas o que ele está escondendo ainda pode nos matar.

Lyris acendeu uma lamparina de mana, iluminando o mapa com uma luz fraca e tensa. O silêncio da Pousada do Livro Aberto era apenas a pausa antes da tempestade. O "onde" e o "quem" estavam resolvidos. Agora, só faltava o "o quê". A chegada da Célula Beta revelaria o verdadeiro horror de UniCampos.

A Pousada do Livro Aberto não oferecia mais refúgio. O quarto de hotel, que deveria ser um posto de comando tranquilo, estava saturado com a tensão de seis Master X e Astral Vanguard sobrecarregados. O time de Lyris Nereval — Lyris, Kazuo Hayashima e Leonardo Veyndril — observava o trio de Tharon Sylvaeon — Tharon, Luna Selvestra e Bob Caelun — que trazia o cheiro da terra e do submundo para o ambiente limpo.

Tharon, o Elfo Solar e Tanque da equipe Astral, ignorou a fadiga e foi direto ao ponto, a voz grave e autoritária.

— Lyris. A infiltração nas bordas da cidade confirmou o pior. UniCampos está sob ataque interno. Não é sequestro. É consumo.

Luna complementou, estendendo um mapa rudimentar rabiscado em um pedaço de pergaminho manchado. — Os desaparecimentos são o resíduo de algo. Os rumores do mercado negro apontam para algo que está sendo levado para o subsolo, para um local que eles chamam de 'abaixo do Minério Pesado'.

Bob, com seu porte maciço, colocou um pequeno frasco de vidro sobre a mesa. Dentro, o óleo escuro e viscoso que haviam encontrado na escada de serviço. O cheiro era de decomposição química e vitalidade orgânica estranha.

— O rastro é este. Encontramos no Poço Central de Serviço T-5. Não é lubrificante de máquina. É um composto biológico. O que está lá embaixo está usando os desaparecidos e está deixando isso como um rastro.

Lyris, a líder da missão, olhou para o óleo e para o mapa com uma concentração gelada. A informação da infiltração de Lyris e Leo na Universidade se encaixava perfeitamente.

— Nós confrontamos o Reitor Orin Vallas. Ele é o ponto de controle. Ele tentou nos desviar, mas a obsessão dele pela integridade da pesquisa o traiu. Ele mentiu sobre o uso dos dutos de serviço e tentou esconder a porta de acesso biométrico para a área T-5. Ele está protegendo um laboratório, não um depósito de lixo.

Lyris traçou um círculo no mapa que unia a área administrativa da Universidade com a periferia onde o poço T-5 estava localizado.

— Vallas é o cérebro. O que Bob encontrou é a arma. Não podemos atacar a porta frontal; é uma armadilha rúnica. A única rota de entrada e saída orgânica é o Poço T-5. O plano muda. A Master X e a Astral Vanguard invadem o complexo subterrâneo como uma Unidade Única.

O clima na sala se tornou profissional, a tensão agora canalizada para o planejamento tático. Lyris não usou mais a palavra "célula"; o time era um só, e o objetivo, inegociável.

Lyris se voltou para Leo. O Mago Tático, apesar da exaustão crônica, assumiu o mapa, traçando as rotas de infiltração.

— O Reitor Vallas nos deu a pista mais importante: ele confirmou que o subsolo é vedado. Se a criatura é biológica e está consumindo pessoas, o laboratório precisará de energia contínua e runas de contenção ativas. Nossa prioridade é desativar essas defesas antes de confrontarmos o criador ou a criatura.

Leo começou a designar as funções, misturando as habilidades dos veteranos e dos aprendizes.

— A invasão é de alto risco. O poço T-5 é o gargalo. Tharon, você lidera a descida. Sua armadura de madeira viva é o único escudo orgânico que podemos confiar contra possíveis venenos aéreos.

Tharon assentiu. — Meu corpo será o escudo contra o ar contaminado. Eu sou a vanguarda.

Leo continuou, a voz baixa e precisa. — Kazuo segue Tharon. Sua velocidade arcanista não deve ser usada para ataque, mas para neutralizar armadilhas rúnicas físicas que Tharon não consiga sentir. Você garante a segurança imediata da rota de descida.

Kazuo, o espadachim arcanista, deu um aceno seco, a única confirmação que ele precisava.

— Luna, você desce logo após Kazuo. Você é a nossa invisibilidade e o nosso silêncio. A missão de vocês é desativar a vigilância de mana no nível mais profundo. Concentre sua Magia das Trevas na anulação dos selos de contenção.

Luna, a Maga das Trevas, aceitou a tarefa com a frieza que lhe era característica. — A anulação será completa. O segredo de Vallas não terá mais paredes para protegê-lo.

— Bob, você desce com Luna. Sua força é a nossa retaguarda, mas sua principal função é a destruição do sistema. Se encontrarmos o laboratório, seu Rompante Tri-Elemental será usado para destruir as fontes de energia e as fontes de contaminação biológica. Não ataque a criatura até que a contenção esteja falhando.

Bob cerrou os punhos, sentindo o calor do Fogo e a eletricidade do Raio formigarem em suas veias. — Entendido. A contenção é a prioridade.

Leo se posicionou ao lado de Lyris. — Lyris e eu seremos a Coordenação Tática. Descemos por último, observando o progresso da equipe e garantindo a extração. Minha Previsão e a sua Magia da Água serão a nossa única chance de reagir a falhas estruturais ou a um ataque de retaguarda. Lyris, você se concentra na gestão da mana da Luna e na minha coordenação.

Lyris, a Maga da Água, confirmou a estratégia, satisfeita com a mistura de força e precisão. — O plano é bom. Ele ataca a vulnerabilidade de Vallas: a estrutura física do laboratório.

Leo, sentindo o peso da responsabilidade, definiu o plano de ataque final. — O objetivo primário é o resgate das pessoas sequestradas. Elas estão sendo usadas como reagentes, não como reféns políticos. Se o Reitor Vallas estiver presente, ele é capturado vivo. Se a criatura for incontrolável e ameaçar a segurança do grupo, Bob a destrói. Sem hesitação.

O plano de infiltração estava pronto, frio e impiedoso, baseado na ciência da Master X e na força da Astral Vanguard.

A noite em UniCampos atingiu seu pico de silêncio na meia-noite. A equipe unificada de seis membros se moveu com a disciplina aprendida sob a tutela de Ainar e a frieza da Master X. Deixaram o brilho enganoso da Universidade e se dirigiram para os becos escuros da periferia, onde a lei e a luz não chegavam.

Luna foi a responsável pela anulação final. Ela se aproximou da cerca de arame enferrujado que isolava o Poço de Serviço T-5. Seu foco era absoluto. A Magia das Trevas se espalhou, um manto invisível que absorveu a luz e a eletricidade estática dos sensores de vigilância próximos. Em um instante, a periferia de UniCampos estava cega e muda.

Tharon saltou a cerca primeiro, testando o terreno com a cautela de um caçador. Ele não fez barulho. Ele se dirigiu à boca escura do poço.

O cheiro de reagentes e o odor orgânico do óleo eram fortes no ar imóvel. A escada de metal estava úmida.

Tharon iniciou a descida vertical. Seus movimentos eram lentos e calculados, a armadura de madeira viva absorvendo qualquer som metálico. Kazuo o seguiu imediatamente, sua presença no ar sendo uma garantia de velocidade caso Tharon tropeçasse em uma armadilha.

Luna e Bob desceram em seguida, a Magia das Trevas da Luna já sendo usada para isolar o ar, criando uma bolha de oxigênio sustentável. Bob, com sua força Tri-Elemental contida, era o peso e a rocha da formação.

Leo e Lyris desceram por último, Lyris usando uma pequena esfera de Água pura para mapear a profundidade e a umidade do poço.

Trinta metros de escuridão tensa.

A luz da lanterna de mana de Tharon finalmente revelou o fundo. Não era o lodo e o basalto de uma mina abandonada, mas uma estrutura de pedra polida e aço reforçado. Uma porta de contenção circular estava entreaberta, sugerindo que o acesso era frequente e deliberado.

Tharon e Kazuo entraram primeiro, desaparecendo na escuridão fria do complexo subterrâneo.

Luna e Bob os seguiram, o corpo de Luna já sentindo a pressão de sustentar a bolha de ar.

Leo e Lyris se posicionaram na entrada da porta circular. O cheiro de decomposição biológica e metal era avassalador.

Lyris olhou para Leo, a seriedade da missão impressa em seu rosto. — Entramos no laboratório de Vallas. Leo, o que sua previsão lhe diz?

Leo fechou os olhos, respirando o ar filtrado pela Luna. O sentimento que ele recebeu não era de perigo iminente, mas de ordem pervertida.

— Ele não está esperando um ataque. Ele está no meio de um processo.

A equipe unificada de seis, a Master X e a Astral Vanguard, havia entrado no coração do segredo de UniCampos. O resgate e a aniquilação do projeto de Vallas estavam a apenas alguns passos. O abismo havia sido alcançado.

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