O som do impacto ainda ecoava nos ouvidos de Kael Vharon.
Mesmo no silêncio da cela fria para onde fora jogado, o barulho dos ossos quebrando e das risadas dos discípulos se repetia em sua mente como um ciclo de tortura.
Ele abriu os olhos lentamente. A visão estava turva, mas ele reconheceu o teto de pedra úmida das masmorras da Seita do Abismo. O outrora prodígio, o Segundo Jovem Mestre, agora estava cercado pelo cheiro de mofo e desespero.
Ele tentou se sentar, mas um grito mudo travou em sua garganta. Seu peito parecia uma cratera. O golpe final de Draeven Korvax — a técnica Palma do Vácuo Azul — deveria ter apenas nocauteado Kael, mas Draeven tinha sido cruel. Ele havia mirado para destruir os meridianos de Kael.
— Aquele desgraçado... — Kael sibilou, o sangue seco grudando em seus lábios.
Ele olhou para suas mãos. Tremiam.
Ele sempre acreditou que o cultivo era uma escada de luz. Dez Reinos, dez camadas de progresso constante. Ele estava na 9ª Camada do Reino da Tempera Mortal, a um passo de alcançar o Reino da Abertura de Meridianos. Ele era o orgulho da linhagem Vharon.
E agora? Ele sentia o Qi em seu corpo esvaindo-se como água em um jarro quebrado.
"Eu perdi tudo?", ele se perguntou, o pânico começando a subir.
Mas, enquanto o Qi azul da seita desaparecia, algo novo ocupava o espaço vazio.
Kael fechou os olhos e focou em seu Dantian. Lá, onde deveria haver apenas cinzas, ele viu uma centelha. Não era a luz clara que a Seita do Abismo pregava. Era uma mancha de escuridão absoluta, uma chama que não emitia luz, mas que parecia devorar a própria sombra da cela.
"O que é isso?"
Ao tocar mentalmente aquela chama, Kael sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha. Não era apenas força. Era uma sensação de domínio.
Lembrou-se do rosto de Draeven. A expressão de tédio. A forma como as pessoas que o chamavam de "Mestre Kael" um dia antes, foram as primeiras a cuspir em seu nome assim que ele caiu.
A dúvida que o consumia começou a ser substituída por algo mais rígido. Mais frio.
— Se o caminho da luz me falhou... — Kael apertou o punho, ignorando a dor lancinante nos tendões — ...então eu caminharei pelo Abismo.
Ele se arrastou até a parede da cela e encostou as costas na pedra gelada. O coração, que antes batia em desespero, começou a pulsar em um ritmo lento e pesado.
Por um segundo, ele olhou para o reflexo de seu rosto em uma poça de água no chão da cela.
Seus olhos não eram mais os mesmos. Havia um brilho metálico, uma profundidade abissal que não pertencia a um jovem da sua idade. Ele não parecia mais um discípulo derrotado; parecia um predador que acabara de descobrir suas presas.
— Draeven Korvax... — o nome saiu como uma maldição. — Você queria que eu fosse o seu degrau?
Ele sentiu a chama negra em seu interior reagir, aquecendo seus ossos quebrados com um calor sombrio.
— Você acabou de me dar o mundo inteiro para queimar.
Kael não percebeu, mas nas sombras além das grades de sua cela, um par de olhos antigos o observava com um interesse renovado. Alguém que sabia que a técnica de Draeven era uma farsa, e que o que Kael acabara de despertar... era o fim de uma era.
A guerra pelo topo dos 10 Reinos não havia terminado. Para Kael Vharon, ela estava apenas começando.
