O chão frio de pedra tocava o rosto de Kael Vharon.
A poeira ainda subia lentamente, pairando sobre o pátio central da Seita do Abismo, como se o próprio mundo quisesse assistir àquela humilhação em câmera lenta.
— Levanta.
A voz veio seca. Fria. Sem um pingo de hesitação.
Kael tentou mover o braço, mas seus músculos pareciam feitos de chumbo derretido. Cada fibra do seu corpo gritava. O golpe final de Draeven Korvax não tinha apenas quebrado seus ossos; parecia ter estilhaçado seu próprio orgulho.
— Esse é o prodígio da família Vharon? — Uma voz zombeteira veio da multidão de discípulos.
— O antigo Número Dois... Olhe para ele. Parece um verme se contorcendo na lama.
Kael apertou os dentes. O gosto metálico do sangue inundava sua boca. Ele forçou a visão, tentando focar na figura parada a poucos metros dele.
Draeven Korvax. O Número Um.
Draeven permanecia impecável. Sua túnica negra e azul, as cores da Seita do Abismo, não tinha sequer um vinco. Ele não estava ofegante. Ele nem sequer parecia ter se esforçado.
— É só isso, Kael? — Draeven perguntou, a calma em sua voz sendo mais dolorosa que qualquer soco. — Eu realmente achei que você fosse durar mais. Mas parece que o seu cultivo é tão vazio quanto o nome da sua linhagem.
Silêncio.
Kael tentou se apoiar nos cotovelos. Ele era o gênio que todos admiravam. Ele era o homem que deveria liderar a Seita de volta à glória. E agora, diante de milhares de olhos, ele era apenas o degrau que Draeven usou para alcançar o topo.
— Acabou — sentenciou Draeven, virando as costas. — O título de Número Dois agora pertence a alguém que realmente tenha força. Levem esse lixo daqui.
Dois guardas da seita se aproximaram. Eles não tiveram a gentileza que um dia dedicaram a Kael. Suas mãos agarraram os ombros feridos de Kael com força bruta, arrastando-o pelo chão de pedra.
"Eu não sou... fraco...", o pensamento de Kael era um sussurro desesperado em sua mente.
Enquanto era arrastado, Kael viu o emblema da Seita do Abismo esculpido no grande portão. Uma chama azul estilizada. A técnica que ele treinou a vida inteira. A técnica que, naquele momento, ele percebeu ser insuficiente.
Foi então que aconteceu.
No momento de sua maior vergonha, quando o último vestígio de seu Qi azul se dissipou, algo no fundo de sua alma... estalou.
Uma centelha surgiu. Mas não era azul.
Era negra. Tão escura que parecia um buraco na realidade. Não era quente como o fogo comum; era pesada, fria e faminta.
A pedra sob os dedos de Kael, que ainda arrastavam pelo chão, rachou sob uma pressão invisível.
Eu voltarei...
O pensamento não era mais um lamento. Era uma promessa.
E então, sob o peso dessa nova e sinistra energia, a consciência de Kael Vharon finalmente mergulhou na escuridão.
