O som de passos pesados ecoou pelo corredor das masmorras.
Kael Vharon não se moveu. Ele permanecia sentado contra a parede, sentindo a Chama do Abismo pulsar em seu peito como um segundo coração — um que não batia, mas que sugava o calor de tudo ao redor.
A grade de ferro da cela rangeu. Um guarda, cujo rosto Kael reconheceu como um antigo subordinado que costumava lhe trazer presentes, entrou com uma bacia de comida azeda.
— Coma logo, Vharon — o guarda desdenhou, chutando a bacia para perto de Kael. — Amanhã você parte para as Minas de Sangue Negro. Draeven Korvax deu ordens diretas: você não deve ver a luz do sol até que seus pulmões apodreçam.
Kael ergueu o olhar. O guarda recuou um passo, instintivamente. Havia algo naqueles olhos escuros que não parecia humano.
— O que foi? — o guarda rosnou para esconder o medo. — Acha que ainda é o Segundo Jovem Mestre? Sua linhagem acabou. Suas técnicas de lixo azul não servem nem para limpar o chão de Draeven.
Kael permaneceu em silêncio até o guarda sair. O insulto à "técnica azul" ecoou em sua mente.
— Ele tem razão... — uma voz rouca e antiga surgiu das sombras mais profundas da cela ao lado.
Kael se sobressaltou. Ele não tinha sentido nenhuma presença ali.
— Quem está aí?
— Alguém que viu a verdadeira glória desta Seita antes de ela se tornar este teatro de marionetes — um velho se arrastou até as grades. Sua pele era pálida como osso e ele não tinha pernas, apenas cotocos envoltos em trapos. — Você sente a queimação negra no seu Dantian, não sente, Kael Vharon?
Kael hesitou, mas assentiu.
— O que Draeven e os Anciãos cultivam é a "Arte do Céu Sombrio"... uma farsa — o velho cuspiu no chão. — Uma técnica enfraquecida, editada pelos Deuses do Mundo Superior para garantir que nossa Seita nunca mais fosse uma ameaça. Eles transformaram o nosso Abismo em uma luz azul patética.
Kael sentiu um calafrio.
— Você está dizendo que tudo o que eu aprendi até hoje... era falso?
— Era uma jaula. A técnica autêntica, a "Devoração do Vazio Eterno", foi perdida quando o Mundo Superior massacrou nossos ancestrais. Mas o Abismo... o Abismo não morre. Ele apenas espera por um hospedeiro com ódio o suficiente para invocá-lo.
O velho estendeu a mão trêmula através das grades.
— Draeven destruiu seu cultivo anterior. Ele achou que estava te matando, mas ele apenas limpou o terreno para a verdadeira semente crescer. A Chama que você despertou é a raiz do verdadeiro Abismo.
Kael fechou os olhos, concentrando-se naquela pequena mancha negra em seu interior. De repente, a informação fluiu para sua mente como se estivesse escrita em seu sangue.
[Sistema de Cultivo — Reinicialização Detectada]
[Técnica Identificada: Devoração do Vazio Eterno]
[Status: Reino da Tempera Mortal — Camada 1 (Reconstruindo)]
— A maioria dos cultivadores leva anos para fortalecer os ossos — o velho sussurrou, os olhos brilhando com uma loucura lúcida. — Mas com a Chama Verdadeira, você não fortalece... você substitui. Cada célula do seu corpo será feita de nada. E o nada não pode ser quebrado.
Kael sentiu uma dor excruciante começar a percorrer seus ossos. Era a Chama Negra começando a "devorar" sua antiga estrutura para reconstruí-la. Ele abafou um grito, cravando as unhas no chão de pedra.
— Vá para as minas, Kael Vharon — o velho riu, uma gargalhada que parecia vir do fundo de um poço. — Deixe que eles pensem que você é um escravo. Enquanto eles cultivam a fumaça azul, você se tornará o próprio Abismo. E quando você sair... os Deuses saberão o que é o medo.
Kael sentiu sua consciência desaparecer sob a dor da transformação. Mas, desta vez, ele não caiu em desespero.
Ele estava sendo forjado novamente.
