*Capítulo 1 — A Vila Que Não Devia Ser Lembrada*
A vila onde Light nasceu não tinha muralhas, nem torres, nem soldados. Não havia bandeiras tremulando ou sinos para avisar perigo. Era um lugar pequeno demais para ser protegido e pobre demais para ser lembrado. Para o reino, ela não existia. Para Light, era tudo.
As casas eram feitas de madeira velha e barro rachado. No inverno, o frio atravessava as paredes como se não houvesse nada ali. No verão, o calor tornava o ar pesado, misturado ao cheiro constante de fumaça e comida simples. Ainda assim, as pessoas viviam. Riam quando podiam. Trabalhavam até o corpo doer. Sobreviviam.
Light cresceu aprendendo cedo que o mundo não era justo. Aprendeu a dividir pão duro, a agradecer restos e a baixar a cabeça quando viajantes melhor vestidos passavam pela estrada de terra. Seu pai dizia que o orgulho era um luxo que os pobres não podiam pagar.
— Enquanto estivermos vivos, já estamos ganhando — ele dizia.
Naquela tarde, Light ajudava o pai a consertar uma cerca torta perto da casa. A madeira rangia sob as mãos calejadas do homem, e Light tentava imitar seus movimentos, mesmo que os dedos doessem.
— Segura firme — disse o pai, com voz calma.
A mãe observava da porta, limpando as mãos no avental gasto. O sorriso dela era cansado, mas verdadeiro. Aquela cena simples era comum demais para ser valorizada — e exatamente por isso, era preciosa.
Então veio o grito. Não foi alto no começo. Foi curto. Quebrado. Um som que não combinava com o fim de tarde tranquilo.
Light levantou a cabeça, confuso. O pai também parou. O segundo grito veio logo depois. Mais perto. Mais desesperado.
— Entra — disse o pai, sério.
Antes que Light pudesse perguntar qualquer coisa, o cheiro de fumaça chegou. Não era fumaça de fogão. Era pesada, sufocante. O som de madeira quebrando ecoou pela vila, seguido por passos correndo e vozes ásperas.
— Mãe…? — Light chamou.
Ela já estava juntando o pouco que tinham, com as mãos tremendo. O pai empurrou Light para dentro da casa.
— Escuta bem — disse, segurando o rosto do filho com força. — Se algo acontecer, você corre. Não olha pra trás. Entendeu?
Light não respondeu. O medo havia travado sua garganta.
A porta foi arrombada antes que qualquer decisão pudesse ser tomada. Homens armados invadiram a casa. Roupas sujas, olhos vazios, sorrisos tortos. Não pediram nada. Não ameaçaram. Apenas avançaram.
O pai se colocou à frente sem hesitar. Pegou a lâmina velha que usava para trabalho. Não era uma arma de verdade, mas era tudo o que tinha.
— CORRE! — ele gritou.
A mãe puxou Light com força. Eles saíram pela porta dos fundos enquanto o som do impacto ecoou atrás deles. Metal entrando em carne. Um grito que foi interrompido de forma brutal.
Light tropeçou, quase caiu. Quis virar a cabeça. Quis gritar pelo pai. A mão da mãe apertou a dele com força demais.
— Não olha — ela disse, com a voz quebrada.
A vila estava em caos. Casas em chamas. Pessoas correndo sem direção. Algumas caíam e não levantavam mais. O céu começava a se tingir de laranja e vermelho, como se o próprio mundo estivesse queimando.
Eles correram até as pernas falharem. Quando pararam, escondidos entre árvores, Light conseguiu ver a vila à distância. O fogo consumia tudo. O som de gritos diminuía aos poucos, substituído pelo estalo das chamas.
O pai não apareceu.
Os minutos passaram. Depois horas. O sol se pôs. Foi só então que Light entendeu.
Ele caiu de joelhos. O ar parecia pesado demais para respirar. A mãe o abraçou forte, tremendo, mas não chorava. Seus olhos estavam vazios, encarando a vila em chamas como se já soubesse que nada seria recuperado dali.
Naquela noite O choque era grande demais. O medo era grande demais. O mundo havia acabado rápido demais.
Sem casa. Sem vila. Sem pai.
E aquele foi apenas o começo.
