Nova York, 14 de Junho de 1965.
O ar condicionado do escritório da Harper & Row, na 49 East 33rd Street, mal conseguia dissipar o cheiro de ozônio das máquinas de Xerox e o aroma persistente de café requentado. Sobre a mesa de mogno do editor-chefe, um exemplar de capa dura com uma arte minimalista — o perfil de um tubarão gigante emergindo da escuridão em direção a uma nadadora solitária — parecia pulsar com uma energia perigosa.
Naquela manhã, Hollywood e Nova York não eram mais as mesmas cidades.
POV: Marshall Sprague, Crítico do New York Times Book Review
Marshall Sprague ajustou seus óculos de leitura e encarou a folha em branco em sua máquina de escrever. Ele pertencia à velha guarda dos "artist-practitioners", homens que acreditavam que a literatura deveria ser uma tapeçaria de adjetivos suntuosos e digressões filosóficas.
Ele olhou novamente para o livro de Leo.
— É... insolente — murmurou Sprague para as paredes de sua biblioteca em Manhattan.
Em sua resenha, ele escreveu: “Nós, que estamos acostumados à elegância distanciada de um Saul Bellow ou à densidade de um John Updike, nos sentimos subitamente agredidos pela prosa deste jovem autor chamado apenas de Leo. Não há o sutil manejo do trauma ou a exploração pastoral das neuroses de classe. Há apenas o tubarão. E a água. E o sangue.”
Sprague sentia um desconforto que não conseguia nomear. O livro era curto demais para os padrões da época, apenas 278 páginas, mas o ritmo era violento. Cada capítulo terminava em um cliffhanger que forçava o leitor a continuar, uma técnica que Sprague considerava "vulgar", mas que, secretamente, o impedira de dormir até as quatro da manhã.
“O autor escreve como se a gramática fosse um obstáculo a ser atropelado,” continuou Sprague em sua datilografia. “Ele omite o óbvio e foca na reação visceral. É um realismo comercial tão cru que beira o primitivismo. No entanto, é impossível desviar o olhar. Leo não descreve o medo; ele o injeta na corrente sanguínea do leitor através de sentenças curtas e afiadas como dentes de marfim.”
Marshall Sprague não sabia, mas ele estava descrevendo o nascimento da estrutura do blockbuster moderno dez anos antes do tempo.
POV: Linda Harrington, Estudante em Santa Monica, Califórnia
O sol de junho em Santa Monica era um convite para o Oceano Pacífico, mas Linda não conseguia tirar os pés da areia. Ela estava sentada em sua toalha, rodeada por milhares de pessoas, mas se sentia isolada. Em seu colo, a edição de bolso de Jaws estava com as bordas gastas e manchadas de protetor solar.
Ela estava na metade do livro, na cena em que o pequeno Alex Kintner desaparece sob a água em sua jangada amarela.
Linda olhou para o mar. Centenas de crianças brincavam nas ondas rasas. Mas agora, ela não via apenas água. Ela via o "vazio". O livro de Leo fizera algo cruel com sua imaginação: ele transformara o oceano, o grande playground da Califórnia, em um território hostil e invisível.
— Linda, vamos entrar? A água está ótima! — gritou seu namorado, correndo em direção à espuma branca.
Linda sentiu um calafrio na espinha. Ela fechou o livro.
— Não... eu vou ficar aqui. Só... só mais um capítulo.
Ela não era a única. Ao longo da costa, livrarias como a The Last Bookstore em Los Angeles estavam relatando algo inédito: as pessoas compravam o livro e, em vez de guardá-lo para ler em casa, começavam a devorá-lo ali mesmo, na calçada. O fenômeno estava sendo chamado de "A Febre do Medo". Leo havia capturado o zeitgeist de uma juventude que começava a desconfiar da segurança das instituições e da própria natureza.
POV: Robert Evans, Diretor de Produção da Paramount Pictures
Robert Evans estava em seu escritório, com o peito nu e um bronzeado que brilhava sob as luzes da Paramount. Ele jogou o exemplar de Jaws contra a parede de vidro, fazendo um som seco de frustração.
— Lew me venceu — Evans rosnou para seu assistente, Peter Bart. — Wasserman comprou o futuro por dez mil dólares e eu estava aqui, negociando direitos para musicais sobre freiras cantoras!
Evans, o "apostador" de Hollywood, reconhecia o ouro quando o via. Ele leu o livro em uma única sentada, ignorando três chamadas de diretores importantes. O que mais o irritava não era apenas ter perdido a obra, mas a "estranheza" da peça.
— Peter, olhe para este manuscrito — Evans apontou para o livro no chão. — Não é um romance. É um roteiro de luxo. Alguém ensinou esse garoto Leo a escrever com a montagem na cabeça. Não há uma cena desperdiçada. Não há um diálogo que não mova a trama. É o que eu venho tentando fazer aqui: propriedades intelectuais que já vêm prontas para a tela.
Evans pegou o telefone.
— Norman? É o Evans. Escute, eu sei que Wasserman tem o tubarão. Mas eu quero o próximo. Não me importa o que seja. Se o Leo escrever a lista de compras do supermercado, eu quero a opção cinematográfica. O garoto tem o 'X', Norman. Ele tem a visão. E eu quero um pedaço disso.
POV: Leo, no Mustang de Prata
Leo dirigia pela Pacific Coast Highway, ouvindo "Help!" dos Beatles no rádio transistorizado. Pelo espelho retrovisor, ele via as praias lotadas de Malibu. Ele parou o Mustang em um mirante, acendeu um Lucky Strike e olhou para o horizonte.
Em sua mente, as notificações de "Power Stones" e "Rankings" de sua vida anterior pareciam ecos distantes, mas a métrica do sucesso em 1965 era muito mais tátil. Ele sentia o peso do cheque de royalties no bolso interno da jaqueta. O livro estava no topo da lista de best-sellers do Los Angeles Times há três semanas.
Ele não sentia o triunfo de um artista; sentia a satisfação de um engenheiro cujo projeto funcionara conforme os cálculos.
Leo sabia que o verdadeiro choque ainda estava por vir. O público de 1965 estava aterrorizado pelo tubarão nas páginas, mas eles ainda não tinham visto o que Steven Spielberg faria com uma câmera e um tema de duas notas musicais.
Ele pegou seu bloco de notas no banco do passageiro.
“Próximo passo: Acelerar 'Love Story'. Lançamento do livro físico em Setembro. Filme no Natal de 1966. Começar a plantar as sementes para 'Christine'.”
Ao olhar para a Torre Negra da Universal, brilhando sob o sol do fim de tarde, Leo percebeu que Sísifo não apenas subira a montanha. Ele a havia comprado.
...
Naquela noite, em um jantar privado no The Bistro em Beverly Hills, Lew Wasserman levantou uma taça de vinho para Leo.
— Você me prometeu que as pessoas voltariam aos cinemas, Leo — disse o "Zeus" de Hollywood, seus óculos de aro preto refletindo as velas da mesa. — Mas você fez algo melhor. Você fez com que elas tivessem medo de ir à praia. Agora, o mundo todo está esperando para ver o que você vai fazer a seguir.
Leo sorriu, um sorriso que carregava o cinismo de 2026 e a audácia de 1965.
— O que eu vou fazer a seguir, Sr. Wasserman, vai fazer o tubarão parecer um peixe dourado.
Enquanto a fumaça do charuto de Wasserman subia em direção ao teto suntuoso, o futuro de Hollywood estava sendo selado. Não com efeitos especiais ou IA, mas com a arma mais antiga e poderosa que Leo trouxera consigo: a capacidade de contar a história certa, no momento exato em que o mundo precisava ouvi-la.
