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Chapter 14 - O Brilho de uma Estrela Cadente

O Natal de 1965 em Los Angeles não tinha neve, mas tinha o brilho frio e elétrico do sucesso. Leo Stone estava parado na varanda de sua nova casa em Trousdale Estates, segurando um copo de cristal com uísque japonês — um luxo que ele mandara importar, sabendo que a destilação oriental ganharia o mundo décadas depois.

Lá embaixo, as luzes da cidade estendiam-se como um colar de diamantes jogado sobre o veludo preto da noite. O rádio na sala tocava baixinho "Turn! Turn! Turn!" dos The Byrds, a música que definia o espírito de mudança daquela virada de ano.

Leo olhou para trás, para o interior de sua sala. No centro, a Plymouth Fury 1958, Christine, brilhava sob o luar que entrava pelas paredes de vidro. O carro parecia satisfeito com o sucesso do livro, cuja tiragem de Natal já havia esgotado em Nova York. O sucesso de Love Story nos cinemas era tão grande que Lew Wasserman já falava em expandir o circuito de exibição para 400 salas, um número absurdo para a época.

— Feliz Natal, Leo — ele murmurou para si mesmo. — Você oficialmente não é mais um fantasma.

...

A Noite de São Silvestre: Hollywood Roosevelt

A festa de Ano Novo no Hollywood Roosevelt Hotel era o evento onde o "Velho Hollywood" e a "Nova Onda" se chocavam fisicamente. O saguão estava repleto de homens em smokings de corte clássico e jovens em vestidos curtos de cores psicodélicas que começavam a invadir a moda.

Leo Stone chegou em seu Mustang prata, entregando as chaves ao manobrista sob os olhares curiosos de fotógrafos da Variety e do The Hollywood Reporter. Ele não precisava mais de convites; seu rosto era o "X" que Norman Brokaw mencionara.

Enquanto caminhava em direção à área VIP perto da piscina Tropicana, Leo sentiu o cheiro familiar de Lucky Strike e perfume Chanel Nº 5. Ele viu Lew Wasserman conversando com Jack Warner em um canto, o "Zeus" parecendo cada vez mais jovem ao lado do decano da Warner Bros., que lutava para manter o controle de um estúdio em declínio.

— Stone! — A voz de Robert Evans o interceptou. O futuro chefe da Paramount estava bronzeado demais para o inverno e segurava uma taça de champanhe com a confiança de um apostador que acabara de ganhar a mesa. — Ouvi dizer que você deu vinte mil dólares para um escritor de pulps chamado Puzo. Lew está chamando você de visionário. Eu chamo de loucura. O que você viu naquele italiano que eu perdi?

Leo Stone deu um sorriso enigmático.

— Eu vi a família, Bob. O público está cansado de cowboys solitários. Eles querem o sangue que corre nas veias de uma dinastia.

Evans estreitou os olhos, tentando decifrar se Stone estava brincando ou prevendo o tempo. Antes que pudesse responder, uma jovem cruzou o campo de visão de ambos.

Ela parecia feita de luz e melancolia. Usava um vestido de seda branco que acentuava sua figura esguia, e seus cabelos loiros caíam em ondas perfeitas sobre os ombros. Seus olhos eram de um castanho aveludado, profundos e ligeiramente tímidos, como se ela estivesse pedindo desculpas por ser a mulher mais bonita da sala.

Leo sentiu um impacto que nada em sua vida anterior em 2026 o preparara. Suas memórias, aquela biblioteca mental impecável, trouxeram a ficha técnica instantaneamente: Sharon Tate.

Atualmente, ela tinha 22 anos, a mesma idade "oficial" de Leo. Ela acabara de terminar as filmagens de Eye of the Devil na França e estava sendo chamada pela imprensa de "A Grande Descoberta de Niven".

— Com licença, Bob — disse Leo, sem desviar os olhos dela.

Ele caminhou em direção ao bar, onde ela esperava por um drinque. Ela parecia um pouco perdida no meio daquela multidão predatória.

— O Martini de Maçã ainda não foi inventado, Sharon — disse Leo, parando ao lado dela. — Mas o gim daqui é honesto.

Ela se virou, surpresa. Um sorriso hesitante iluminou seu rosto.

— Como você sabe meu nome? Eu sou... bem, eu quase não apareci em nada ainda.

— Eu tenho o hábito de notar o que é autêntico em uma cidade construída de gesso — Leo respondeu, pedindo dois Martinis secos. — Meu nome é Leo Stone.

— O autor — ela disse, os olhos brilhando. — Eu li Jaws no avião voltando de Londres. Eu não consegui olhar para a água do canal da mancha pela janela sem tremer. Você é muito mais jovem do que eu imaginei.

— E você é muito mais real do que as fotos sugerem — Leo retrucou.

Havia um peso no olhar de Leo que Sharon não conseguia entender. Ele olhava para ela com uma mistura de admiração e uma tristeza oculta. Em sua mente de 2026, ele via o destino cruel que a aguardava no verão de 1969 na Cielo Drive. Ver aquela vitalidade, aquela doçura intacta, era como segurar uma borboleta que ele sabia que seria esmagada se a história seguisse seu curso original.

— Você está bem? — ela perguntou, tocando levemente o braço dele. — Você parece ter visto um fantasma.

Leo recobrou a compostura, sentindo o calor do toque dela através da manga do paletó.

— Apenas o efeito da luz Technicolor, Sharon. Ela faz tudo parecer mais intenso do que realmente é.

Eles conversaram por vinte minutos. Sharon falou sobre seu medo de não ser uma boa atriz, de como o produtor Martin Ransohoff a mantinha sob um contrato rígido, mas sem lhe dar papéis que desafiassem seu talento. Leo a ouvia com uma atenção que ela raramente recebia em Hollywood. Ele não estava tentando levá-la para a cama como os outros homens ali; ele parecia estar tentando... protegê-la.

— Eu vou produzir um filme chamado Christine no próximo ano — Leo disse, inclinando-se para mais perto. O cheiro do perfume dela era floral e suave. — É sobre uma obsessão que toma forma de metal. Há um papel para uma garota que representa a pureza no meio do caos. Se você estiver interessada em sair das sombras das bruxas e dos papéis de "menina bonita", eu gostaria que você lesse o roteiro.

Sharon olhou para ele, o Martini esquecido na mão.

— Você me ofereceria um papel principal? Assim? Sem um teste?

— Eu já vi o seu teste, Sharon. O mundo é que ainda não abriu os olhos.

A contagem regressiva para 1966 começou a ecoar pelo Roosevelt. “Dez... Nove... Oito...”

— Eu adoraria ler, Leo — ela sussurrou, aproximando o rosto do dele.

No momento em que o relógio bateu meia-noite e a multidão explodiu em aplausos e beijos, Leo sentiu os lábios de Sharon Tate roçarem levemente em sua bochecha. Foi um flerte casto, carregado de uma promessa que ele não sabia se podia cumprir.

— Feliz Ano Novo, Leo Stone — disse ela, antes de ser puxada por um grupo de amigos.

Leo ficou parado, observando-a desaparecer na névoa de confetes e fumaça de charuto. Ele olhou para sua mão, onde o relógio marcava o início de 1966.

Ele viera ao passado para ser um magnata, para ganhar bilhões e dominar o cinema. Mas, naquele momento, ele percebeu que havia algo mais valioso do que o ouro ou os roteiros de sucesso. Ele tinha a chance de reescrever não apenas a história da indústria, mas o destino das pessoas que amava — mesmo aquelas que ele acabara de conhecer.

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