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Chapter 8 - PILARES DE FERRO

O salão do Conselho Secreto, aninhado nas profundezas do Forte da Guarda do Planalto, era um local onde a frieza do mármore e a pesada responsabilidade da Coroa sufocavam qualquer vestígio de calor. As altas janelas estavam fechadas contra o sol forte que castigava a capital, e a iluminação vinha apenas de candelabros de bronze que lançavam sombras longas e fantasmagóricas sobre a mesa oval de jacarandá.

O silêncio ali não era de paz, mas de espera tensa. Quatro das oito cadeiras do Conselho estavam vazias, mas a ausência mais palpável era a do Rei.

Ugrí Martelgranito, o Conselheiro de Guerra e Defesa, um anão robusto cuja barba ruiva era trançada com anéis de bronze, batucava um dedo na lateral do coldre de sua machadinha cerimonial. Sua impaciência era uma névoa que pairava pesadamente sobre ele, contida sob o peso de sua armadura cerimonial polida e coberta de runas brilhantes.

Do outro lado da mesa, Aelion Bragallien Árvanyur, o Ministro das Finanças e irmão mais velho do Rei Thalien, soltava um pigarro seco a cada minuto. O meio-elfo, cuja linhagem se revelava nos traços excessivamente elegantes de seu rosto e olhos verde-dourados, apertava o colarinho de seda, claramente incomodado. Ele remexia um copo de água-de-fogo, cheirando o líquido como se estivesse avaliando o custo de cada gota.

— Já passamos da hora estabelecida — resmungou Aelion, a voz controlada mas impaciente. — O tempo é dinheiro, meus senhores. E o Reino tem pouco de ambos, no momento.

Ugrí, o anão, nem sequer se dignou a virar a cabeça em sua direção. Ele falava olhando para as chamas vacilantes da vela mais próxima.

— O tempo não é seu, Aelion. O tempo pertence ao Rei. E se o Rei Thalien tem assuntos urgentes antes de nos honrar, nós esperamos. É a disciplina, Ministro. A disciplina sustenta os muros desta cidade.

— A disciplina é inútil quando não há ouro para pagar os sentinelas! — retrucou Aelion, empurrando os balancetes em sua frente. — E a fronteira consome mais ouro em fardos de lã e ração que toda a Cidade Baixa em um ano.

— A fronteira é o Reino, Aelion — disse uma quarta voz, baixa e quase etérea.

Elarion Valtharën, o Mestre das Sombras, estava sentado na cadeira mais distante. O elfo, com seus duzentos e dezessete anos, tinha uma aura de observação perpétua. Sua presença era tão sutil que ele parecia ser apenas uma mancha na penumbra, sua capa de folhas vivas quase invisível nas sombras. Ele estava pacientemente limpando as unhas de seu dedo longo com um estilete de obsidiana.

— Se a fronteira cair, não haverá Tesouro. E se os boatos do Vale de São Arcan se confirmarem... — Elarion fez uma pausa, fixando os olhos âmbar em Aelion. — ...O problema do senhor não será a falta de ouro, e sim a falta de pescoços para rolar.

Ugrí soltou um ruído áspero, que parecia um sorriso.

— Boataria e sussurros são seu pão, Elarion. Seja específico. O que exatamente a Guilda Master X tem feito que justifique sua menção em um Conselho da Coroa?

— Acúmulo. Não de aço ou ouro. De gente. Seus agentes estão agindo como mediadores em disputas de terras que não são deles, recrutando juramentos de lealdade de famílias nobres em desgraça e alocando-os no sul. Eles estão comprando influência mais rápido do que o Tesouro consegue contar moedas.

— Comerciantes — Ugrí bufou. — Eles pensam que podem montar um exército com contratos. Eu prefiro enfrentar um Regimento de contadores a um Batalhão de selvagens orcs da Estepe.

— Você está cometendo o erro de todo General arrogante — disse uma nova voz, cortante como vidro.

A porta lateral do salão se abriu, e a figura de Aurélius Venthor, o Sumo Sacerdote, entrou na câmara. Ele usava a túnica branca de lã imaculada, mas o peso do símbolo solar de platina em seu pescoço parecia arrastar seu corpo magro. Seus olhos, cinzentos e duros, eram os de um fanático, e ele carregava consigo a autoridade da Igreja do Santo Luminar e a ausência do Rei.

O Conselheiro de Guerra e o Ministro das Finanças se levantaram por reflexo, embora o Mestre das Sombras permanecesse imóvel, seus olhos âmbar fixos no sacerdote com desconfiança silenciosa.

— O Rei Thalien está, novamente, indisposto — anunciou Aurélius, sua voz rouca, mas firme. Ele caminhou até a cabeceira, olhando para a cadeira vazia do Rei. — Ele me encarregou de ouvir vossas preocupações e de transmitir-vos a gravidade do momento. Ugrí, seus selvagens orcs da Estepe são previsíveis. Comerciantes que pensam como Reis... esses são perigosos.

Aurélius posicionou-se na cabeceira da mesa, apoiando as mãos na madeira escura, seu sorriso gentil mascarando algo mais sinistro.

— Antes de ouvirmos sobre as defesas e as finanças, quero que saibam que o Rei tomou uma decisão final sobre o Edito de Sucessão.

O ar rarefeito do salão pareceu congelar.

O calor úmido e quase sufocante do Santuário da Luz Purificadora era um bálsamo para Seraphina Yllari. Era o único lugar onde a fina camada de gelo que ela usava para se proteger do mundo parecia derreter, revelando algo que se assemelhava perigosamente à vulnerabilidade.

Ela estava sentada imóvel na câmara de purificação, um espaço circular forrado em mármore negro e ocre, onde apenas os mais devotos podiam entrar. O piso, constantemente aquecido por runas de calor que pulsavam suavemente por baixo, queimava de leve a planta de seus pés descalços. Não havia música, apenas o som hipnótico da água benta, caindo gota a gota de um bico de bronze em uma bacia rasa.

Os aromas eram intensos, quase avassaladores. O ar estava saturado de incenso de flor-de-luz, um cheiro doce e narcótico que sempre a lembrava do perfume enjoativo de sua mãe, a Rainha Isadora. Havia também o odor pungente de óleo de eucalipto sagrado e o cheiro metálico e forte de sangue — não fresco, mas a fragrância antiga, quase mofada, de um sacrifício antigo que parecia impregnado na pedra.

Seraphina, a Princesa de dezenove anos e a vilã na sombra, usava apenas uma fina mortalha de linho branco que, molhada de suor, aderia à sua pele pálida como uma segunda camada. Seus cabelos loiro-platinados com reflexos prateados, a marca de sua linhagem élfica diluída mas ainda presente, estavam soltos, caindo em cascatas onduladas até a cintura, pesados com a umidade e o óleo de sândalo.

Ela não estava sozinha. Duas sacerdotisas idosas e silenciosas, suas mãos ressecadas e cheias de cicatrizes de rituais anteriores, trabalhavam em torno dela. Elas não a tocavam, exceto para aplicar as finas camadas de unguentos e óleos que purificavam a carne.

Uma delas, a mais velha, conhecida apenas como Irmã Silêncio, pegou um pincel de pelo de lobo espiritual, mergulhou-o em uma tigela de barro contendo cinzas de guarapuvu queimado misturadas com mel e começou a traçar símbolos antigos — runas da Igreja do Santo Luminar — na nuca da Princesa.

O toque. O contato do pincel era delicado, mas a fricção das cinzas na pele era áspera. O mel era quente. Seraphina fechou os olhos, absorvendo a sensação. Era um rito de humilhação e lembrança; a Purificação pela Luz Divina, que ela detestava, mas que era necessária para manter as aparências de devoção perante o Sumo Sacerdote Aurélius.

— A chama solar está acesa, Princesa Yllari — sussurrou a outra sacerdotisa, a voz rouca como areia.

Seraphina assentiu sem abrir os olhos. O Edito de Sucessão, a manipulação do Rei, a ansiedade de Aethon, o futuro de Cael, a conspiração com Aurélius. Todos esses pensamentos eram espinhos, e o ritual, apesar de sua repugnância, era o único martelo capaz de afundá-los temporariamente para que ela pudesse planejar.

O cheiro da flor-de-luz intensificou-se. Ela podia sentir os poros da pele se abrindo, a exaustão de semanas de manipulação drenando seu corpo. No calor úmido, Seraphina sentia-se ao mesmo tempo purificada e pesada, como um sino que foi limpo, mas ainda está cheio de bronze e silêncio.

Ela finalmente abriu os olhos cor de ametista, mirando seu reflexo na superfície oleosa do mármore. Onde as sacerdotisas traçaram os símbolos, a pele de seu pescoço estava negra, coberta pela pasta de cinzas.

Por baixo da mortalha úmida, tatuagens de encantamento brilhavam fracamente em sua pele — marcas que ninguém mais sabia que existiam, segredos de sua verdadeira magia.

Ela sussurrou para si mesma, mais uma ameaça do que uma oração.

— O sangue élfico precisa de fogo humano.

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