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Chapter 2 - Capítulo 2: O Peso da Coroa de Poeira

O silêncio que se seguiu às palavras do protagonista em Turah não era o silêncio da paz; era o vácuo que precede uma catástrofe. Centenas de pares de olhos — alguns turvos pela exaustão, outros brilhando com um medo supersticioso — estavam fixos na figura pálida e ruiva que se recusava a cair. O sangue seco em suas costas formava um mapa de rios negros sobre a pele alva, mas sua postura era a de um monarca examinando súbditos rebeldes.

Khensu, o guarda cuja vida agora estava ligada a um juramento imprudente, sentiu o primeiro gosto real do terror. Não era o medo de um superior ou de uma lâmina inimiga; era o terror primordial de enfrentar o inexplicável. Ele olhou para o jovem escravo, cujos cabelos ruivos pareciam capturar a luz do sol como brasas vivas, e viu algo que não estava lá antes: uma inteligência fria, afiada como um bisturi de obsidiana.

Análise de ambiente concluída, pensou o protagonista, ignorando o tremor residual em suas pernas.

Ameaças imediatas: Khensu (instável), quatro guardas auxiliares (hesitantes), multidão de escravos (maleáveis). Estado biológico: Crítico. Reserva de ATP: 12%.

Ele sabia que o "milagre" de se levantar tinha um custo. Cada segundo que ele permanecia ereto, sua telecinésia estava drenando o pouco de glicose que restava em seu sistema para manter seus ossos no lugar. Se ele não jogasse suas cartas agora, ele desmaiaria, e desta vez, Khensu não esperaria que os deuses interviessem antes de cortar sua garganta.

— O que estão esperando? — O grito de Khensu saiu rachado, traindo sua ansiedade. — É um truque! Algum feitiço dos nómadas do deserto! Matem-no! Matem-no agora!

Os quatro guardas auxiliares deram um passo à frente, mas suas lanças tremiam. No Egito, um juramento feito pelos deuses não era algo que se pudesse ignorar. Se matassem o escravo agora, estariam a interromper um julgamento divino? Estariam a atrair a fúria de Set para si mesmos?

— Toquem-me — disse o protagonista, a voz baixa mas projetada com uma autoridade que cortava o ar quente — e o juramento de Khensu tornar-se-á a vossa própria maldição. Ele prometeu o seu sangue ao deserto. Querem ser os próximos a assinar esse contrato?

A lógica dele era uma arma. Ele não apelou para a piedade; ele apelou para o egoísmo e para o medo supersticioso deles. Um dos guardas baixou a lança, os olhos fixos na poeira.

— Khensu — continuou o protagonista, virando o olhar cobalto para o oficial. — Tu és um matemático medíocre. Calculaste a minha morte com base na biologia de um homem comum, mas esqueceste-te da variável mais importante: a vontade. Agora, o tempo está a passar. Sentes o peso do bronze na tua cintura? Sentes como o teu futuro se tornou subitamente... estreito?

Enquanto falava, o protagonista estava a realizar um feito de multitarefa que deixaria qualquer computador da sua vida anterior sobrecarregado. Internamente, ele estava a manipular a sua Pirocinésia para aquecer suavemente as glândulas suprarrenais, forçando uma descarga controlada de adrenalina para combater a fadiga. Simultaneamente, ele usava a Telecinésia para sentir as vibrações no solo.

Ele sentiu o que precisava. Uma carruagem aproximava-se. O ritmo dos cascos era rápido, pesado. Nobreza.

A notícia do "escravo que não morria" e do juramento absurdo de um guarda de baixo escalão espalhara-se pelas pedreiras como fogo em palha seca. Alguém de importância estava a chegar para investigar.

— Tu não passas de um hebreu imundo! — Khensu desembainhou a sua adaga, o desespero vencendo o senso comum. — Eu mesmo acabo com isto!

Khensu avançou. O movimento era desajeitado, cego pelo pânico. Para o protagonista, o tempo pareceu abrandar. Ele viu o ângulo da lâmina, a tensão no ombro de Khensu, a poeira levantada pela sandália do guarda.

Ele não se moveu. Não precisava.

Quando Khensu estava a um metro de distância, o protagonista focou a sua mente num único ponto: o parafuso de bronze que segurava a fivela do cinto de Khensu. Com um impulso telecinético preciso, ele não empurrou o guarda; ele simplesmente removeu a fricção do parafuso.

O cinto de Khensu soltou-se instantaneamente. O peso da saia de linho pesada e das bolsas de moedas fez com que as vestes do guarda caíssem, prendendo-se nos seus joelhos a meio do ataque. Khensu tropeçou, a sua própria inércia atirando-o de cara no calcário afiado.

O som do impacto foi seguido por um silêncio chocado. Khensu, o oficial temido, estava agora caído, com as vestes em desordem, sangrando pelo nariz e parecendo um tolo diante de todos os escravos.

— O primeiro sinal — murmurou o protagonista, alto o suficiente para os escravos ouvirem. — Os deuses já começaram a tirar-te a dignidade. O resto virá em seguida.

Nesse momento, a poeira no horizonte abriu-se. Uma carruagem dourada, puxada por dois garanhões negros, parou bruscamente. Nela, um homem com um peitoral de lápis-lazúli e uma peruca perfeitamente alinhada observava a cena com desdém aristocrático. Era Horemheb, o supervisor real das obras de Faraó.

Horemheb não acreditava em milagres. Ele acreditava em resultados. E o que ele via era uma pedreira parada e um oficial no chão.

— O que é esta farsa? — a voz de Horemheb era como o estalar de um chicote.

Khensu tentou levantar-se, puxando as suas vestes com pressa humilhante. — Senhor! Este escravo... ele praticou bruxaria! Ele seduziu a minha esposa e agora usa artes negras para me humilhar!

Horemheb olhou para o protagonista. Ele viu o cabelo ruivo — a cor associada ao deus Set, o deus do caos e do deserto. Viu a pele branca, o olhar que não se desviava e a inteligência que emanava dele como um calor físico.

— Tu — disse Horemheb, apontando o seu ceitro para o protagonista. — Dizem que foste espancado até à morte e que este guarda jurou castrar-se se ficasses de pé. Como é que ainda respiras?

O protagonista deu um passo à frente. A sua mente estava a calcular o perfil psicológico de Horemheb: arrogante, pragmático, ambicioso. Ele não queria um "milagreiro"; ele queria alguém útil.

— Respiro porque a morte é um erro de cálculo que eu não pretendo cometer hoje, Grande Supervisor — respondeu o protagonista, usando o dialeto egípcio formal com uma perfeição que fez Horemheb arquear uma sobrancelha. — E quanto ao juramento do guarda... é apenas a lei da causalidade em ação. Quem joga com o destino deve estar preparado para pagar o preço.

Horemheb ficou intrigado. Um escravo que falava como um alto sacerdote? — Tens língua afiada para um hebreu anémico. Mas Khensu diz que és um adúltero.

— Se eu fosse um adúltero, teria tido o bom senso de não ser apanhado — replicou o protagonista, com um meio sorriso gélido. — Khensu usa a mentira para esconder a sua própria corrupção. Ele vendeu as joias da sua casa e precisava de um culpado. Olhe para as minhas mãos, Senhor. Estão calejadas pelo trabalho nas pedras. Algum homem que passa o tempo em leitos de oficiais teria mãos assim? Mas olhe para as unhas de Khensu. Há resíduos de vinho barato e óleos que ele não poderia pagar com o seu soldo.

A acusação foi direta e fundamentada na observação. Horemheb olhou para Khensu, que começou a suar frio.

O protagonista sabia que não podia vencer apenas com palavras. Ele precisava de uma demonstração de valor.

— Senhor Horemheb — disse ele, apontando para um imenso bloco de calcário que estava encravado numa rampa de areia, atrasando o trabalho de dezenas de homens. — Estão a tentar mover aquele bloco há três dias. O vosso método está errado. O ângulo da rampa gera demasiada fricção e a base do trenó não está lubrificada com a proporção correta de lodo e água. Se me permitir, posso mover aquele bloco com metade dos homens em metade do tempo.

— E se falhares? — perguntou Horemheb.

— Então Khensu não precisará de se castrar. Pode usar a adaga dele na minha garganta.

Horemheb sorriu. Era uma aposta que ele adorava. — Tens até ao pôr-do-sol. Se o bloco chegar ao topo, serás levado para a minha casa para seres interrogado. Se falhares... a areia beberá o teu sangue.

Khensu soltou uma gargalhada nervosa, acreditando que o escravo tinha assinado a sua própria sentença. Afinal, como poderia um homem que mal conseguia ficar de pé mover dez toneladas de pedra?

Mas o protagonista já estava a calcular. Ele não usaria apenas os seus músculos atrofiados. Ele usaria a sua Telecinésia para anular o peso da gravidade em pontos estratégicos do bloco, e a sua Pirocinésia para aquecer a areia sob o trenó, criando uma camada de ar e vapor que reduziria a fricção a quase zero.

Para os observadores, pareceria um golpe de engenharia genial. Para ele, era apenas física aplicada através da vontade.

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