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Chapter 2 - Capítulo 2 – O forasteiro de olhos sombíos

Lyria não pensou.

Apenas agiu.

Enfiou o manto por cima da camisola, escondendo o ombro marcado, e abriu a janela com cuidado. O frio da noite mordeu sua pele, mas ela ignorou. Melhor o frio do que ser encontrada.

Os sinos continuavam tocando ao longe. Cada badalada parecia empurrar o tempo contra ela.

— Anda… — murmurou para si mesma.

Desceu com dificuldade, os pés tocando o chão úmido do quintal. A casa de madeira rangeu atrás dela, como se reclamasse da fuga. Por um instante, Lyria teve medo de que alguém tivesse visto. Mas a rua ainda estava vazia.

Ela correu.

O vilarejo parecia diferente à noite. Sombras mais longas. Silêncios mais pesados. As casas fechadas, as janelas apagadas, como se todos soubessem que era melhor não ver nada.

Quando virou a esquina da antiga ferraria, ouviu passos. Não eram os dela.

Lyria parou de repente, o coração quase pulando pra fora do peito. Pensou em voltar, mas já era tarde demais.

— Não faça barulho — disse uma voz baixa, atrás dela.

Ela girou assustada, quase gritando, mas uma mão cobriu sua boca antes. Forte. Quente.

— Calma — a voz repetiu. — Não vou te machucar.

Os olhos dele eram escuros. Não apenas pela falta de luz, mas profundos, atentos demais. Ele parecia… alerta. Como alguém acostumado a fugir.

Lyria mordeu a mão dele por reflexo.

— Ei! — ele reclamou em voz baixa, soltando-a. — Eu disse calma.

— Quem é você? — ela sussurrou, recuando um passo. — Se veio por causa da marca, pode ir embora.

O forasteiro franziu a testa.

— Então você tem uma — disse. Não parecia surpreso. — Eu sabia.

Isso fez o medo dela crescer ainda mais.

— Se souber disso, sabe o que acontece com pessoas como eu — Lyria respondeu, tentando parecer mais firme do que se sentia.

Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros, como se estivesse cansado.

— Sim. Eu sei. Por isso mesmo você não devia estar aqui.

Antes que ela pudesse responder, vozes ecoaram no fim da rua.

— Verifiquem essa área!

Lyria sentiu o corpo travar.

O forasteiro não hesitou. Segurou o pulso dela e a puxou para trás da ferraria, onde sombras se acumulavam. O coração dela batia tão alto que parecia denunciar os dois.

— Fique quieta — ele murmurou. — Confia em mim. Só um pouco.

Ela queria dizer que não confiava. Que não confiava em ninguém. Mas não disse nada.

Os passos passaram. Lanternas iluminaram a rua por segundos longos demais. Depois, foram embora.

O silêncio voltou, pesado.

— Quem é você? — Lyria perguntou de novo, agora com a voz mais baixa.

— Kael — ele respondeu. — E você está em perigo maior do que imagina.

— Todo mundo diz isso — ela retrucou.

Kael olhou para o ombro dela, mesmo escondido pelo manto, como se conseguisse ver através do tecido.

— A lua vermelha não aparece por acaso — disse. — E marcas como a sua… não despertam sem motivo.

Lyria sentiu a marca pulsar de leve, como se respondesse às palavras dele.

— Você sabe demais — ela disse.

— E você sabe de menos — Kael respondeu. — Se ficar aqui, eles vão te encontrar. Não hoje. Mas logo.

Ela engoliu em seco.

— E se eu for com você? — perguntou, quase sem perceber.

Kael demorou a responder. Os olhos escuros encontraram os dela.

— Então não tem mais volta.

A lua, ainda vermelha, observava os dois do alto.

E Lyria soube que aquela escolha mudaria tudo.

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