Depois que Trevor mergulhou na escuridão do lado de fora de seu apartamento, a humanidade continuou sua contagem regressiva para o fim. A montanha negra se aproximava cada vez mais do planeta Terra. O caos se espalhava com mais intensidade pelo globo. Choro, roubos, assaltos, até assassinatos e suicídios. Cada humano enfrentava o fim à sua maneira, seguindo sua própria natureza. Às vezes gentil, às vezes mortal e caótica.
Mas o fim não esperaria que a humanidade expressasse sua natureza. A montanha logo chegou a minutos de colidir com a Terra. Sua presença estranha e opressiva já era sentida. Os oceanos se enfureceram. Tsunamis destruíram cidades em todo o mundo, tornando-se mais violentos à medida que a enorme massa de pedra negra cobria o céu. Isso trouxe a noite mais cedo do que o habitual. Este era o fim, e todo o planeta sabia disso.
Então algo aconteceu. Ao atingir a atmosfera, a rocha se desintegrou como uma bola de argila na água. Ela se desfez em um mar infinito de nuvens negras que cobriram todo o planeta em uma escuridão abissal. Em ambos os polos da Terra, duas pequenas gotas tomaram forma. Uma era tão negra que se destacava mesmo na escuridão profunda em que o planeta estava mergulhado. A outra era de um vermelho tão brilhante que parecia uma estrela de sangue brilhante no meio do vazio. Ambas as gotas flutuaram no céu por alguns segundos e então se moveram mais rápido do que a percepção humana poderia registrar. Elas viajaram por todas as nações humanas do planeta. Cada lar, cada vila, cada império. Cruzando o globo em segundos.
A pequena gota negra parou na nação da Primeira Estrela, logo acima de sua capital, a cidade de Vedra. Pairou sobre a cidade por alguns segundos antes de voar novamente. Apareceu na janela de um pequeno cubículo de apartamento nos arredores da cidade. Lá dentro, um jovem moribundo jazia no chão. Ele estava tão perto da morte que poderia ter sido um milagre seu coração fraco ainda estar batendo. Depois de alguns segundos pairando na frente do jovem, a gota se moveu e mergulhou direto onde estava seu coração. Se Trevor estivesse acordado naquele momento, ele teria visto o símbolo de uma serpente negra devorando sua própria cauda aparecer em seu peito, logo acima de seu coração, e então desaparecer. Naquele momento, mudanças começaram a ocorrer no corpo de Trevor. Eram mudanças cuja origem ele levaria anos para descobrir, mas elas salvaram sua vida.
Lá fora, depois que a gota chegou ao seu destino, começou a chover. Caindo das nuvens negras, as gotas banhavam todos os cantos do planeta. Elas mudaram para sempre o destino da humanidade, assim como a gota havia mudado o de Trevor.
Escuridão absoluta era tudo o que Trevor via ao abrir os olhos. Uma escuridão vasta e infinita, tão opressiva que o fazia sentir como se estivesse diante de um grande predador. Não que ele já tivesse estado diante de um. Mas sentia que, se algum dia estivesse, não seria tão terrível quanto agora. Trevor logo percebeu que talvez seus sentidos estivessem mais aguçados do que imaginava. Toda a escuridão ao seu redor começou a se mover. O mar infinito parecia dançar como uma gigantesca criatura viva feita de pura escuridão.
Sem que ele sequer percebesse de onde vinha, de repente dois grandes olhos apareceram diante dele. Eram tão negros que era difícil distingui-los do resto da escuridão opressiva. Trevor só os notou porque, no momento em que apareceram, cada instinto em seu corpo gritou que algo o observava. Era como se um medo ancestral e incompreensível emergisse das profundezas de sua alma para alertá-lo. Os olhos o encararam, e a escuridão parou de se mover. Lentamente, os olhos se aproximaram. De dentro da escuridão, uma serpente emergiu.
Comparada à escuridão ao redor, a pequena serpente parecia quase inofensiva. Bonitinha até. Se não fosse pelo medo enlouquecedor que tomava conta de cada fibra do corpo de Trevor a cada segundo que se aproximava. Ele não entendia de onde vinha esse medo irracional, mas era como se sua própria alma soubesse. Trevor queria correr, fugir, mesmo sem ter para onde ir. Cada parte dele gritava para fazê-lo, mas nenhum músculo se movia. Seu corpo parecia paralisado, incapaz de reagir. A pequena serpente de olhos negros se aproximou de Trevor, tocou sua mão com a cabeça e então deslizou lentamente por seu braço. Enquanto subia, Trevor podia senti-la se movendo por sua pele. Subiu pelo peito e finalmente parou sobre seu coração.
Ao parar, uma pequena partícula de escuridão voou até ele e penetrou em seu peito. Ele sentiu algo se espalhar por seu corpo. Então outra partícula veio, e outra, e outra, até que um mar de escuridão fluiu para dentro de seu peito como uma maré. Invadiu seu corpo, espalhando-se por toda parte, mudando e preenchendo cada parte de sua existência. A dor desse processo era avassaladora. Era pior do que sentir seu coração falhar, pior do que morrer, mais aterrorizante do que afundar no vazio da morte. A sensação daquela escuridão invadindo-o era tão angustiante que Trevor sentiu sua consciência se esvaindo durante o longo processo de tortura. Eventualmente, sua mente escureceu.
A chuva caía torrencialmente, sem parar, por todo o mundo. Os pingos de chuva banhavam ruas e avenidas, casas e prédios em todas as cidades da Terra. Em Vedra, deitado no chão de um apartamento, o corpo de Trevor estremeceu levemente. Então seus olhos se abriram lentamente. Ele olhou ao redor por alguns segundos. Sua mente ainda estava lenta, lutando para processar o mundo ao seu redor. Sua garganta estava seca e seu estômago roncava como um animal enjaulado, faminto há dias.
Mas Trevor sabia que algo estava errado. Algo mais importante do que água ou comida. Um detalhe crucial que ele estava ignorando. Algo ainda mais importante do que o fato de estar vivo. Mas sua mente lenta não conseguia entender. Continuava escapando por entre seus dedos sempre que ele se aproximava.
Incapaz de encontrar uma resposta, Trevor sentiu uma raiva crescer dentro de si. Mas então um rosnado silenciou todos os pensamentos. Ainda sentado no chão frio, Trevor decidiu que a resposta correta era definitivamente comer. Nenhuma mente funciona bem com o estômago vazio. Seu apartamento era pequeno. Um cubículo com cozinha e quarto no mesmo espaço, e um banheiro separado. Ficava em um prédio pequeno e antigo nos arredores de Vedra, perto das grandes fábricas. O aluguel era barato. Perfeito para um jovem de vinte anos que acabara de entrar no mercado de trabalho.
Levantando-se do chão, levou apenas alguns passos para chegar à cozinha. A primeira coisa que fez foi abrir a geladeira e virar uma garrafa inteira de água em segundos. Sentiu o líquido descer pela garganta seca como uma gota no meio do deserto. Sua sede era tão intensa que uma garrafa não era suficiente. Foram necessárias quatro até se sentir satisfeito. Então, pegou um prato de sobras da geladeira e se surpreendeu ao devorá-lo com as mãos. Nem pensou em usar o micro-ondas.
O que, na verdade, não era necessário. Não estava frio. Estava em temperatura ambiente. Com a geladeira desligada, foi uma surpresa que não tivesse estragado. Ele teria que reclamar com a companhia de energia. Aquelas quedas constantes estavam se tornando insuportáveis. Mas assim que terminou de pensar nisso, Trevor deixou a comida cair no chão. Muitas emoções passaram por seu rosto em segundos. Esperança, terror, pânico, dúvida.
Ele correu para a janela ainda aberta e olhou para a rua. Os prédios ainda estavam de pé. Nenhuma janela quebrada. Nenhum mar de fogo e chamas. Mas, acima de tudo, ele ainda estava vivo. Isso deveria ter sido impossível. Era noite. O meteoro já deveria ter caído e eliminado a vida na Terra. Não importava a sorte que tivesse, Vedra não poderia ter sobrevivido ileso. Mas então Trevor notou algo. Corpos jaziam espalhados pelas ruas. Destruídos, como se algo os tivesse dilacerado. Nenhum fogo, mas havia paredes quebradas, portas de metal de lojas arrancadas. Mas o mais perturbador era que, entre os cadáveres, havia pessoas ainda de pé na chuva. Algumas estavam sem braços ou pernas. Algumas quase partidas ao meio. Pessoas que deveriam estar mortas estavam andando.
Um terror indescritível percorreu o corpo de Trevor. Olhando para o céu negro e a chuva que caía, Trevor se afastou da janela e a fechou lentamente. Tinha medo de tocar naquela água, ou no que quer que estivesse vindo com ela.
O meteoro pode não ter destruído a Terra. Mas as nuvens negras acima, a chuva que caía delas, aqueles seres com forma humana e os cadáveres espalhados pelas ruas... estavam todos claramente conectados. Mas uma pergunta ainda o assombrava. O mundo não havia terminado como prometido. Mas será que o mundo em que Trevor acordou ainda tinha algo do mundo pacífico que ele um dia conheceu?
Todos os sinais apontavam para não.